Deus Ama, o Homem Mata – X-Men

Deus ama, o homem mata

Deus Ama, o homem MataEsta sim pode ser chamada de Graphic Novel com G maiúsculo. Até porque era assim na época em que Graphic Novels realmente eram uma obra-prima e não apenas uma coletânea de sagas de revistas regulares. Deu pra perceber que eu torço o nariz pra estas coleções de encadernados se auto intitularem Graphic Novels, né ? Não é a capa dura que faz uma Graphic Novel, mas seu conteúdo. Não entendam mal, gosto das coleções, não gosto de se auto denominarem como algo que não são. Soa mercadológico, enganador, cascateiro… parece que quer me enganar e isso não é preciso. Juro que não entendo o departamento de marketing de muitas empresas. Tem tanto profissional de marketing bom por aí que entende de mercados específicos e de produtos específicos, mas as empresas insistem em contratar pessoas por currículo, e estas fazem muitas besteiras em vários níveis. Bom, paciência… sou profissional de marketing e entendo bem isso, o que não me impede de ficar chateado. Ainda temos muito a evoluir, mas não é o caso neste post de hoje. De qualquer forma, se isso te der algo para refletir, já me sinto realizado.

Deus Ama, o homem Mata
“Humano?! Você ousa chamar aquela coisa… de humano?”

Em Deus Ama, o Homem Mata somos introduzidos ao cerne do que torna os X-Men o que são de verdade: párias de uma sociedade. Aquele lance de ” uma sociedade que os teme e os odeia por não os conhecerem” é tudo o que vemos aqui. Só que de forma magistral, como um mestre pode fazer. Coisas de Chris Claremont. Aliás, nunca houve e nunca haverá ninguém tão foda forte no título dos X-Men quanto Claremont. Ele definiu tudo. Ninguém conseguiu definir os X-Men tão bem quanto ele. Vieram muitos depois, causaram e descausaram… mudaram esteticamente, mexeram em essências e personalidades, fizeram um monte de besteiras ( pra não usar a palavrinha de 5 letras que começa com M ). Tentaram, mas sempre pecaram num dos principais pontos: Mudar a personalidade dos personagens. Claremont nunca precisou disso para escrever histórias marcantes. Nunca mudou nada em mais de 10 anos à frente dos mutantes da Marvel. 09As situações, aventuras, vilões… tudo mudou, mas a essência sempre se manteve. Porque a essência é o que faz você se identificar com o personagem e quando você muda isso, é quando você perde o leitor. Por que os X-Men ainda tentam fazer sucesso ? Porque cada vez que você abre uma revista dos mutantes, você tem uma esperança lá no cantinho do seu coração de que os X-Men estarão lá… e não esta miscelânea sem nexo que fazem nos dias de hoje. Tentei ler Wolverine recentemente e quase vomitei na revista… muito ruim. Agora você entende porque a Marvel vive fazendo as péssimas histórias que faz atualmente ? Deus Ama, o homem MataPorque idiotas como nós ( sim, me incluo em vários casos ), vão chegar nas bancas e comprar as revistas mesmo sabendo que vai ter porcaria, mas lá no fundo a gente acredita que uma hora ele irão trazê-los de volta. Aí quando o interesse do pessoal cai com as péssimas histórias, os editores dão um jeito de zerar tudo e resgatar a essência outra vez. Como tudo no mundo de hoje se tornou medíocre pela facilidade de acesso, os gênios ficam escondidos na multidão e por isso, fica mais difícil de encontrar escritores decentes. Mesmo pras grandes editoras. É um momento triste esta transição mundial do “jeito de ser das coisas” em que vivemos, e em tudo se percebe este reflexo, seja na política, na economia, na religião e porque não, nos quadrinhos e no cinema. Normal, percebe aí pra você ver.

Deus Ama, o homem MataEste post de hoje está bem cheio de revoltas e isso tem a ver com a própria história da edição que comento aqui. Afinal, o preconceito é o assunto principal da revista, e o mais legal é que ele fica em voga o tempo todo, mostrando todos os lados da questão. A genialidade do Claremont está justamente no fato de que ele não toma um partido. O “lado” não é dos humanos, ou dos mutantes, mas sim do quanto o preconceito é ruim, do quanto as massas são facilmente manipuláveis por falta de  cérebro. E se você observar muito bem, perceberá o quanto estamos longe de acabar com isso. Acho que o preconceito é algo inerente à espécie humana. Não é um problema social, mas biológico. Pode ser quem um dia venha a sumir com a evolução social, cultural e atinjamos o nível que Star Trek nos mostrava. Uma era em que não se veria nem cor de pele. Mas, como pode ver em “Deus Ama, o Homem Mata”, mesmo uma historia de 1982 continua super atual nos dias de hoje. O que mudou apenas é que ter preconceito era normal naqueles dias. Era comum se expressar com preconceito. Hoje as pessoas ainda tem os mesmos preconceitos e se baseiam neles pra suas escolhas e decisões, só que não expressam. Se escondem e, cá entre nós, melhor você sofrer preconceito direto, olhando na cara do monstro do que sofrer o preconceito velado, pelas costas, sem saber de onde veio a bala.

img_0442Deus ama, o homem mata é pontual, afiada. Tem falas maravilhosas, cuidadosamente escritas para tocar fundo na alma. Numa época em que os mutantes eram amados por todos os leitores, vê-los sofrer preconceitos do mundo real foi doloroso e fez muita gente pensar no assunto. Eu acho confuso como que tem gente que ainda pensa que HQ’s são coisa de criança… ensinam mais do que muitos livros, porque os quadrinhos te fazem viver algo real, te colocam dentro da historia, fazem você sentir. Tem muita literatura por aí que é sim boa a seu modo, mas que não cria esta identificação com o leitor. E é por isso que hoje as pessoas se identificam tanto com os heróis do cinema. Eles são mais diretos. Assim como o Faroeste já foi um dia. Penso que a Panini deveria relançar esta edição em papel normal, com preço normal e fazer um favor a população ao torná-la acessível a todos. Ela  pode ajudar a nova geração super-protegida pelos adultos de hoje, a entenderem o que é o preconceito, seus diferentes níveis e suas consequencias.

ANX_21_Preview_1Uma coisa que gostei muito em “Deus ama, o homem mata” é que para ficar mais evidente como o preconceito funciona, Claremont se fez valer de artifícios inteligentes ao mostrar que mesmo uma pessoa doente pode guiar multidões com os argumentos certos, se estes argumentos se fizerem tocar de alguma forma com algo que se identifique dentro do outro. Isso não é diferente do momento político que vivemos em nosso pais. Aliás, não apenas aqui. Existe uma vertente de estudo que diz que 8% da população humana faz parte da solução, 2% faz parte do problema e 90% faz parte da paisagem. Imagine você que estes 2% fazem um baita estrago porque manipulam os 90% da paisagem e os 8% dos bons ficam ocupados tendo que corrigir esta paisagem o tempo todo, o que permite que os “cidadãos problema” continuem na vida boa… Pois é, pense aí onde você está localizado. Mas seja muito sincero com você mesmo. Porque é disso que esta HQ fala.

Deus Ama, o homem MataPode ser que este texto tenha ficado um tanto tenso, até pesado pra se falar apenas de uma HQ. Mas isso mostra que quando não uma pessoa se pronuncia sobre algo errado, o simples fato de que ela se cale, permite que o mau avance. E nesta Graphic Novel, o preconceito é o vilão. Não é o reverendo maluco, não é a religião, não é o Magneto, e não é a justiça. É o mal do julgamento sem razão/pensar. O julgamento sem coração. A ignorância levando ao medo, medo leva a insegurança, que leva a frustração, que leva ao ódio e este leva ao sofrimento. ( mestre Yoda ? ) O caminho é este. Este caminho ocorre dentro de cada ser humano, inconscientemente. E se não for levado ao consciente, se não for percebido com a atenção objetiva, ele domina nossos atos e nem percebemos. Aí, quando o pior acontece, quem você vai culpar? Os mutantes ? Os negros ? Os políticos ? Os ET’s ? As pessoas de olhos verdes ? Esta HQ também mostra o poder de indução de uma crença religiosa sendo abusado por uma única pessoa com o poder da oratória. Veja bem, religião não é problema. Religião é pura. A manipulação da fé alheia para atingir objetivos próprios é que são o verdadeiro mal. E isso é do ser humano, não do divino.

Deus Ama, o homem MataLeia esta HQ e pense, reflita sobre a tua vida, sobre os teus hábitos e na tua influência a sua volta. Não apenas leia por ler… não seja parte da paisagem, seja parte da solução do mundo. Creio que este seria o modo mais inteligente de agir no nosso mundo e torná-lo melhor. Porque pior pode ficar sim. Uma HQ de mais de 30 anos ainda é atual. Como você explica isso ? Lembra do livro/filme, a Máquina do Tempo ? As vezes penso que cada dia que passa, somos mais parecidos com os Elóis e nos permitimos e aceitamos ser capturados e devorados pelos MorlocksH.G. Wells era um visionário do começo do século, mas quem quer fazer algo a respeito ? Pois bem, este blog é uma das formas que encontrei, além das minhas atitudes do dia a dia… Fazer postagens por curtidas te leva onde ? Escrever o que todo mundo quer ler, te leva onde ? Reflita.

Como pode ver, Deus Ama, o Homem Mata leva a muito o que pensar. Eleva o pensamento, busca questões dolorosas dentro da gente. Apenas os fortes enfrentam a si mesmos. É a maior das lutas, a mais sangrenta das batalhas, e a verdadeira guerra a ser vencida. Os diálogos da HQ são muito fortes, inteligentes, profundos. É uma publicação inteligente. Precisa ter massa cinzenta pra sacar a amenidade, e olha que o Claremont fez de tudo pra ser o mais direto possível, pra que todo mundo entendesse… mas com o nível de cultura que vivemos hoje em dia, penso que é uma pena que muita gente apenas leia uma “historinha“… e isso explica a baixa qualidade das HQ’s de hoje.  

xmenglmk3Os personagens presentes nos X-Men são a melhor formação de todos os tempos ( segundo a minha opinião, claro… ): Wolverine, Ciclope, Tempestade, Noturno, Colossus e Kitty Pryde. Nunca houve equipe como esta. A mais coesa, mais irmã, mais realista. E é claro que ter o Carcaju no uniforme marrom só deixa melhor ( hehehe ). A participação do Magneto como o “outro lado da moeda” é muito densa, é bem orquestrada. Ainda mais com a situação em que o Xavier se encontra. A gente sempre ficou do lado do Xavier, mas nesta história, a gente começa a ver o Magneto com outros olhos. É quando começa todo a fase cinza nas HQs. É quando os vilões passam a ter motivações reais, plausíveis e questionaveis. É revista pra ler e dormir abraçado chorando pela honra de ter lido. Sabe assim ?

Deus Ama, o homem MataA Arte é de Brent Anderson. O cara tem o típico traço dos anos 80. Direto, orgânico, visceral. Muito bem desenhado, expressões diretas, sinceras, sem esta mania de “toda página é uma capa” de hoje em dia. Ele soube fazer a história ser algo sequencial. Cabe dizer que ele foi muito bem na substituição de última hora do Neal Adams. Aliás, tiro meu chapéu pra ele. Ele não se traiu por dinheiro. Ele seguiu a sua ética. Ele é um símbolo de caráter. No Brasil, chamam este tipo de pessoa de “idiota“. E são os “não idiotas” que estão pagando o preço desta crise causada por eles mesmos… se houvesse um mínimo de ética em nossa cultura, teríamos um pais diferente… mas, enfim. Reclamar não resolve, atitude, sim.

Todo o roteiro do filme X-Men 2 foi baseado nesta HQ, mas nem de longe o filme chegou perto do drama da revista. O filme misturou alguns pontos desnecessários, embora tenha sido o melhor dos 3 primeiros filmes mutantes e o meu preferido. Se você não leu esta maravilha, está mais do que na hora de ler. Porque isso te dá cérebro, forma massa cinzenta, saca ? Tutano !

Vou ficando por aqui, possivelmente este é o post mais longo do blog até hoje. Agradeço a você que leu ele inteiro. Quem já sofreu algum tipo de preconceito vai entender esta edição como ninguém. Quem nunca sofreu, se for uma pessoa de baixa empatia, provavelmente não vai sacar o quanto ela é importante. ( Isso mesmo, é importante, no presente. Como já relatei acima, o quadro não mudou ).

Por favor, comente e compartilhe. Quanto mais pessoas lerem, melhor pro mundo das HQs.

Abraços do Quadrinheiro Véio.

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Surpreendentes X-Men – Perigoso

Primeiro gostaria de dizer que estou muito grato por esta Coleção Oficial de Graphic Novels da Salvat por ter me resgatado como leitor de HQ´s. Esta edição dos mutantes é uma das gratas surpresas do que eu perdi da casa das idéias durante estes mais de 15 anos de ausência em minhas leituras. Pelo jeito a maioria dos lançamentos são pós anos 2000 e por isso está sendo bacana ter tanto ineditismo pra mim. O que vem antes de 98 eu li praticamente tudo, então, é bom ser atualizado e saber que, mesmo sendo poucas histórias, foram feitas sagas muito boas.
Supreendentes X-Men: Perigoso, é a continuação da edição ‘Superdotados‘ ( que você pode ver uma análise minha aqui ) é uma destas gratas surpresas boas. Não digo que é uma das melhores que eu já li, mas é uma edição que faz a gente sentir tudo que gostaríamos de sentir lendo uma história dos mutantes. Talvez eu seja um tanto ranzinza por achar um pouco ‘politicamente correta‘, ou até o Wolverine meio ‘manso‘, mas encaixou bem na saga. Sou do tempo em que o baixinho atarracado era nervosão e só o professor X segurava a onda dele. Acho que o Dentes de Sabre tem razão quando diz que ele está ficando manso…. hehehe.
Situando: esta história republica as edições 7 a 12 da revista Astonishing X-Men lançados em 2004/2005. Ainda acho que a editora enriqueceria um pouco mais dando informações sobre a época do lançamento. 
Esta edição está mesmo muito boa e faz a gente entender a anterior que foi a ‘cama’ pra isso. Acho até que seria mais justo com a gente se tivesse sido lançado apenas em uma edição, com as 12 revistas. Claro que a editora precisa ganhar dinheiro e sabemos como anda complicado viver de publicações impressas nos dias de hoje. Em ‘Perigoso‘ vemos uma aventura digna dos mutantes da Marvel. Tem menos embromação e blá-blá-blá mutante e mais ação. O tema ‘preconceito’ está lá, assim como os conflitos internos da equipe e um Xavier mais falho como tem sido nos últimos anos, porém tem algo mais. Tem o Ciclope, que sempre foi revoltado, deixando esta revolta tomar conta de si. Vemos o aflorar de um sentimento que ele deixou recluso por muitos e muitos anos e nota-se que é uma panela de pressão prestes a explodir. Tanto que a cena que eu atribuí equivocadamente na analise anterior, em que ele detona quase meia floresta com uma rajada ótica está nesta edição e não na anterior como eu havia mencionado. ( sorry… misturei. )

É difícil escrever sem soltar spoilers e prometo que vou me esforçar pra não falar nada inadvertidamente. O que acho gostoso nesta edição é o medo que a gente sente. Gosto quando o autor faz a gente achar que alguém pode morrer, ou que eles estão tão indefesos que desta vez vão perder feio. No caso dos X-Men as vitórias deles nunca são simples, sempre que vencem um adversário, existem perdas. Sejam de membros do grupo, seja na ideologia, seja uma decepção interna. Algo sempre acontece, e o Joss Whedon manteve

isso. Gosto do Colossus desde sempre. Desde que o conheci numa aventura dos X-Men enfrentando o Arcade e logo depois em Secret Wars. Eu comprava Super Aventuras Marvel ( SAM ) pra ler o Demolidor e o Justiceiro e acabei conhecendo os X-Men e aos poucos fui aprendendo a gostar da equipe. E como a maioria, a paixão pelo carcaju foi enorme, seguido pelo Colossus e Ciclope. Gostava quando não eram tanto mutantes. Nos anos 90 tinha tanto mutante que eu comecei a achar um exagero. Entendia a mensagem, mas não era algo que divertia como antes. Esta edição é divertida. O ‘Perigo’ é real e este nome tem um motivo. Não vou estragar a surpresa de vocês, porque eu adorei ter a surpresa e a sensação de tentar adivinhar o inimigo secreto é uma delicia. E que inimigo engenhoso. Que desafio mais intransponível. Se fosse tão inteligente quando racional, os mutantes não teriam a menor chance. Tem uma passagem que todos quase morrem que eu perco o folego. Whedon é um gênio da manipulação. Quem leu sabe o que to dizendo. 

Tem diálogos muito ricos, inclusive um muito bem bolado entre o Peter e a Kitty. Ela projeta nele seus medos e inseguranças. A única coisa que não ‘colou’ muito bem, ao menos pra mim, é como está sendo fácil pro Colossus, após tanto tempo encarcerado e sozinho, voltar pra equipe como se nada tivesse acontecido. Acho que ficou meio forçado.
Outra coisa que poderia ser mais explorada é a escola após os fatos desta edição. Eu realmente fiquei a fim de saber o que vem depois. Vou pesquisar.
Agora, realmente os desenhos não me agradam. John Cassaday segue o mesmo traço e perspectiva da edição anterior e poucos quadros me agradaram. Ele tem movimento, tem um sombreado bacana e tudo, mas não gosto dos rostos. Tirando o Colossus, que ficou bem legal. Que sorte a minha… hehehe…
As cores estão legais e acompanham o clima da HQ.
Acho que é uma edição imperdível. Se não pegou, corre na banca pra ver se ainda tem.
Abraços do Quadrinheiro Véio !