Frank Miller na CCXP

Frank Miller na CCXP

IMG_0941Certamente um dos grande momentos na vida de um fã de HQ’s é poder conhecer, de perto, criadores de grandes histórias.

Neste momento, eu não sei como descrever racionalmente o sentimento de estar cobrindo a CCXP, Comic Con Experience, e ter o mestre Frank Miller no palco principal. Um bate papo muito divertido, sincero, respeitoso com este “monstro sagrado” que foi um dos grandes artistas que embalaram as maiores e melhores histórias que eu pude ler na minha infância e adolescência.

Como já disse no post anterior, Frank Miller foi o desenhista da mini série Wolverine, em 4 edições, desenhada por Chris Claremont. Emocionei em vários momentos… quando ele falou de si, quando falou sobre Cavaleiros das Trevas… do novo Cavaleiro das Trevas 3, que teve uma edição sorteada aqui no evento. Quando nos anunciou que seu próximo projeto será Simcity 1945… cara, não sei do que se trata, ele não falou mais nada sobre o assunto. Mas, precisa ? O seu trabalho todos estes anos, mesmo Cavaleiro das Trevas 2, que não é seu maior momento, já nos diz que vem coisa boa, que vem algo que vale a pena ser lido. 

Frank Miller na CCXPFrank Miller, pra mim, está no topo. Ao lado de Alan Moore, John Byrne, Neil Gaiman, Alex Ross e Mark Waid ( que tem uma ou outra história não tão boa, mas coloco no topo por Reino do Amanhã ). Tem muitos outros grandes escritores e artistas que são ótimos, mas não tem como, pra mim, pro meu gosto pessoal, superar estes nomes. Liderados mesmo pelo Frank.

Sua versatilidade e ousadia são inspiradoras. E seu estilo, mesmo sendo diferente do Alan Moore, é único.

Estou absurdamente emocionado. Este é um blog de opinião, logo, o que você lê aqui é e sempre será a minha versão. E estou muito, muito emocionado.

Este post é curto, não tenho como fazer algo maior do que isso neste momento.

Apenas não poderia deixar em branco.

Obrigado CCXP – Comic Con Experience. Não apenas por trazer este ícone, mas por me permitir ser um dos comunicadores do evento. De ser um dos poucos escolhidos a levar pra muitos fãs de HQ como eu, o que eu vi e senti aqui.

Teremos video no canal sobre o evento, além de um post gigantesco aqui no blog.

Obrigado, meus amigos, por me permitirem dividir isso com vocês.

Abraços emocionados do Quadrinheiro Véio !

Frank Miller CCXP

Frank Miller na CCXP

Eu Wolverine

Eu Wolverine

Olá Quadrinheiro.

Eu, Wolverine - Abril

E o artigo de hoje é da história do Wolverine que me fez conhecer e me apaixonar pelo personagem logo de cara. Ná época que eu li, foi no formatinho da abril, em 4 edições. E esta história simplesmente revolucionou minha cabeça de uma forma absurda. Eu, criança, lendo apenas umas HQ’s mais leves do Homem-aranha e companhia. No ano de 1982, este formatinho me fez viajar de tal forma que eu só queria ser o Wolverine… rs… Lembro que eu peguei um colo de cartolina duro, que era o miolo do novelo de lã da minha mãe, uma fita crepe e colei uns gravetos de bambu de fazer pipa neles. Colocava aqui nos braços e tinha as garras do Wolverine pra brincar… hehehehe… Bons tempos… A gente não tinha Wii e nem Kinect, então, tinha que viver o Wolverine na pele. Claro que eu levava uma surra dos amigos. Enquanto todo mundo fazia espadinha de cabo de vassoura, lá estava eu com 6 garras retráteis de bambu, de curto alcance… mas certamente eu era o que mais me divertia ! Tudo graças à esta HQ.

1098925Esta mini-série do Wolverine definiu o personagem de tal forma pra mim, que pra tudo que eu li dele depois eu me referencio nela. Desde os traços, aos movimentos. O comportamento, o temperamento e as atitudes disciplinadas ou não. Ela foi de tal importância que, pra mim, o melhor uniforme dele é o marrom e bege e as garras dele sempre ficam mais bem desenhadas como laminas de espada ninja. Tudo nesta HQ é perfeita. A cena do urso no começo, acompanhada da frase que marcaria o personagem pra todo sempre ” Eu sou Wolverine. Eu sou o melhor no que eu faço. Mas o que eu faço de melhor, não é nada agradável.” é a melhor definição do Logan já publicada. Rapaz, perdi a conta das vezes que eu repetia esta frase a vida toda. Imagine ser um leitor de HQ numa época que ninguém lia. Imagine um tempo em que ninguém conhecia esta frase… Hoje em dia Wolverine e vários outros heróis estão na moda. Mas nos anos 80, meu amigo, ninguém entendia lhufas do que a gente dizia. E mais ainda, você era considerado um nerd crianção. Como se não bastasse as boas notas na escola. Acho que foi apenas quando ingressei o ensino médio ( na época, segundo grau ) que conheci mais umas 3 pessoas numa escola com mais de 500 que liam HQ’s. A sensação de solidão se foi ! ( louco isso, né ? hahahahahaha ) Ter com quem falar sobre paixão é tudo de bom. Aliás, penso que muito da febre de futebol, carnaval, e outros gostos populares que existem se propagam e crescem por isso. Para que as pessoas possam ter com quem falar. Mas eu nunca gostei de futebol e carnaval, menos ainda… além de nerd eu era Heavy Metal… ( caraca… sempre excluido socialmente, né… hehehehe… de boa ). Então, encontrar pessoas que curtiam heróis foi muito legal. 
13-wolverine1-1aEu, Wolverine
é uma HQ obrigatória. Mais do que isso, é uma das primeiras mini-series focadas no Logan, que mostravam mais de sua vida além X-Men e que começou a definir um caminho pra sua personalidade. Começa a mostrar as coisas que ele se importa e começa a tirar um pouco daquela imagem de baixinho nervoso ( dizem que baixinho é mais bravo, porque o sangue sobe mais rápido pra cabeça…hehehehe ).

Vamos falar um pouco sobre a série. Já começa com o Logan no Canadá sendo ele mesmo. Primeiro ele vai atrás de um urso que havia matado umas pessoas e descobre que o urso estava envenenado e por isso, fora de si. Pelo cheiro da flecha do caçador, ele encontra o cara em uma cabana. Esta sequencia já vale a edição. Sem exageros. Em seguida ele vai pro Japão para encontrar uma namorada ( que a gente nem imaginava que existia ) e descobre que ela é de uma família de mafiosos ligados ao Tentáculo, um clã de ninjas assassinos mortais ( sentiu o peso, né ? ).  O pai dela é o líder do Clã Yashida e quer casar a filha para aumentar o poder da família, e o Logan não quer aceitar isso. Aliás, a condução de cena das batalhas de espada entre Logan e Lord Shingen são obras primas. O drama das cores, das sombras… foco, mudança, movimento… uma dança conduzida pela morte, narrada pelo próprio protagonista: – ” Eu arranco wolverine1sangue. Ele arranca ainda mais de mim.” Por aí, você já sente a encrenca, né ? Uma das grandes idéias desta mini-serie é a introdução da Mariko Yashida e de Yukio, a ninja assassina. Yukio tem a missão de matar o Logan, mas acaba se apaixonando. Tudo que a gente lê nesta história tem ligação com o Japão e seus costumes. Gosto muito deste toque heterogêneo : De um lado a disciplina e valores orientais japoneses e do outro, a raiva caótica do mutante canadense de alma selvagem. Existem momentos que a selvageria toma conta e Logan curte isso, se solta, abre sorrisos… ele é uma máquina descontrolada que gosta disso. Mas ao final, o lado homem vence, o amor dele por Mariko vence o torna digno e humano, integro. Com controle sobre sua selvageria. Mais uma vez, a sabedoria oriental, se auto-conhecer para se tornar pleno, prevalece. Uma história muito notável, emocionante, inteligente, gratificante. Perdi a conta de quantas vezes eu li e reli esta história nestes anos todos… naqueles gibis pequenos, com a capa solta… remendada com durex por um desesperado menino que curtia muito preservar suas coisas. Você pode imaginar que, embora ninguém hoje em dia pague 1 real por esta edição de 1982, eu não vendo a minha nem por uma Ferrari. Não é o que temos, mas quem somos, que no diz quem somos. Suas atitudes terão peso no mundo e não suas posses. Eu vivo por princípios. Por mais demodê que isso possa parecer.

edd5554c6cb622cf4d54c0aacfaff9ffAssinando o roteiro está o magnifico Chris Claremont. Eu não sei se preciso falar algo dele. Pra mim é o maior de todos os escritores dos mutantes da Marvel de todos os tempos. Insuperável. Existe sim todo um sentimento nostálgico na minha afirmação, mas é aquele esquema. Este é um blog de opinião e não tenho obrigação de ser neutro. Sei que muitos outros redefiniram muito os mutantes depois dele, mas o que este cara fez nos mais de 12-13 anos à frente das revistas mutantes, é definitivamente superior. E todo o estudo que foi feito por ele pra esta revista, definindo seu background, seu passado recente. Aquela medida entre manter o mistério mesmo revelando muito. Ele soube fazer e fez bem feito demais. Seus diálogos são tão barbaros, inteligentes, relevantes e cabíveis… este cara fez uma revolução nas revistas em série. E tendo Frank Miller pra dar vida e movimento às suas idéias, não tinha como não aclamar esta HQ como uma das grandes dentre as grandes. Frank Miller se esbaldou em duelos e movimentos. Acho que esta HQ foi de grande auxilio pra preparar Cavaleiro das Trevas em termos de profundidade de roteiro. Mesmo ele não tendo escrito, apenas desenhado esta série, ela está nos primórdios das mudanças que culminaram em HQs como Watchmen, 300, Gilgamesh, Cavaleiro das Trevas, Ronin… parece que o universo estava se preparando e começou com Eu, Wolverine.

ImortalExistem várias passagens do filme Wolverine Imortal que são baseadas nesta mini-série. Uma pena que a adaptação pro cinema não tenha ficado tão boa. Eu gostei do filme, mas não empolgou. O que considero muito triste, já que a história e o personagem merecem, e muito.

Se você tem alguma dúvida da importância histórica desta revista, espero ter ajudado a situá-la pra você entre as grandes produções da época. Ela consegue ser atual nos anos 80 e se manter com a mesma atualidade nos dias de hoje. Ela não fica datada, mas entender o momento mundial é importante. Leia com tempo, sem pressa. Aprecie as ilustrações ( se você conseguir, pois o ritmo é frenético ). Se permita emocionar com os personagens e entender que emoção não é apenas chorar, mas rir, sentir raiva, medo e inspiração.

Abraços do Quadrinheiro Véio !

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Demolidor – A Queda de Murdock

Miller e Mazzucchelli.
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O post poderia terminar por aqui, mas como eu não sei falar pouco, e eu demorei muito tempo pra resolver escrever sobre esta saga, cá estou eu sentado na frente desta tela, emocionado, por finalmente poder falar de uma das que eu considero uma obra prima dos quadrinhos, e que me fez crescer muito como ser humano, já que li isso ao final dos anos 80 na SAM e era a revista que eu não conseguia parar de esperar, mês a mês, pra ir buscar na banca enquanto não fechou a história.
A Queda de Murdock marcou a minha vida de tal forma, que até hoje eu lembro falas, narrativas, quadros e do sentimento. Sempre faço questão de falar sobre o sentimento, sobre a influencia que as HQ’s exercem em nosso emocional. Se ela não te abalar emocionalmente e não te instigar mentalmente, ela está deixando passar uma oportunidade de ouro.
Provavelmente voce já sabe desta HQ. Não poderei fugir de um spoiler ou outro durante o texto, mas se você não leu ainda esta edição tem dois motivos: Você começou a ler a pouco tempo ou você não é fã de quadrinhos. Mesmo que você goste ou não goste do Demolidor, tem que tirar o chapéu pra esta historia, que reune uma narrativa densa o tempo todo, cheia de nuances, de passagens psicológicas, reativas, levantando temas relevantes para a época como as drogas, os cartéis, gângsters e o lado humano do Matt Murdock. Quase não temos o Demolidor, é tudo centrado no Matt, no ser humano, na pessoa. Pessoa que sente, vive, respira, chora, come, dorme, machuca, pensa e sofre. E como sofre.
Deixa eu te situar um pouco no tempo. Antes desta saga, o Demolidor vivia num mundo florido, light… não tinha muita profundidade. Miller havia estado na revista a uns 7 anos antes e já  havia começado a colocar o estilo mais denso e sério, mas quando ele retornou pra escrever a Queda, ele veio pra detonar, pra mudar.
E como ele ja estava naquela energia do Cavaleiro das Trevas e outras publicações dele da mesma época, ficou mais evidente que ele gostava mesmo era de quebrar tudo. Sagazmente ele decidiu reposicionar o personagem, centrar ele numa guerra urbana, em um bairro simples, em um cotidiano mais próximo do chão, menos acrobático. Tudo se passando na Cozinha do Inferno, mas a realidade mesmo era que não importava. A Queda é do Murdock, não é do bairro, não é do Demolidor. A revista começa e termina com Matt. Demolidor demora pra entrar em cena e você não sente falta. Não sente…

 

A narrativa as vezes segue complexa e densa, te localizando, gerando o clima certo. Tem uma passagem que eu realmente adoro, que a gente fica cego com o Matt, que ele relembra como foi os primeiros momentos no hospital, os diálogos  os sons… tudo com muito sentimento, muito tocante. A gente emociona com ele, sente pena, sente a força dele surgir. A gente se torna o Demolidor, nascemos junto com ele. Depois, entram quadros e mais quadros de movimento. Movimento silencioso, com quadros que variam de tamanho… pequenos detalhes mostrados para intensificar grandes movimentos. Mazzucchelli fez algo admirável tamanho é a profundidade emocional dos personagens em um traço exageradamente limpo. Acho isso formidável, uma qualidade. E a coloração clean, lisa, sem aquele monte de manchas para dar profundidade. HQ por HQ mesmo, comum na época pré-photoshop. A paleta das cores geram nuances que acompanham toda a trama de modo que se você apenas seguir a leitura sem atentar aos detalhes a condução do seu inconsciente é tão grande que você fica ofegante junto com ele após uma corrida, ou de olhos mareados, ou com um frio na barriga de medo nas cenas em que os personagens sente isso. As sequências de movimento são tão perfeitas que você desvia a cabeça pra não ficar no meio de uma porrada ou um chute. Seus dedos se quebram junto com os do repórter. Você perde a respiração junto com o policial estrangulado. Você sente a dependência quimica do Bazuca, e quando Murdock cai, você também cai.
A queda mesmo esta nas duas primeiras edições, depois vem a recuperação e termina com ele livre, recomeçando a vida. É um roteiro digno de filme. Juro. Alias, este post está sendo lançado hoje, junto com o lançamento mundial da série do Demolidor na Netflix de propósito. É a minha homenagem e desejo de que a série seja mesmo um sucesso.
Os pensamentos do Matt são um prazer a parte. Muito bem escritos. Eu gosto mais da primeira tradução, da SAM. É mais coesa e pra mim tem todo o fator nostálgico, admito. Mas os pensamentos dele, o diálogo interno, as conclusões… o limiar da loucura. E tem também o pensamento do Rei. Pensamento primoroso, de um grande vilão. Junto a tudo isso o contra-ponto que passou a ser muito usado com o DD, que é o demônio sempre sendo salvo pela igreja, alem de a própria mãe ser uma freira. O reencontro deles, a forma que ele descobre isso.
Tudo artístico, tudo perfeito. Não consigo ainda ver nesta obra a mão do marketing. O lance era fazer uma boa historia, com os personagens se revolucionando. Uma das maiores provas da grandeza desta saga é que mesmo fora do contexto temporal, ler ela hoje te toca do mesmo jeito. Sabe por quê ? Porque é uma historia humana. Não fica datada com tecnologia. Este é o toque magistral do Mestre Miller.
Nesta HQ aconteceu tanta coisa, tanta mudança… Ben Urich, JJJameson, Rei Do Crime, Franklin Nelson, Karen Page, Melvin Porter. E o mais legal, na minha opinião tem a melhor historia do Capitão América até hoje. Esta frase do Capitão, segurando a bandeira americana é muito marcante: ” Não sou leal a nada, General… exceto ao sonho.” Em determinado momento, o bairro da Cozinha do Inferno é bombardeada e os Vingadores precisam intervir: Um Soldado cuja voz poderia comandar um deus, e um deus cuja voz pode comandar o tempo. Todos se calam…”. Grandioso !
Acho que vou parar aqui, pra que você possa ler ( ou reler ) a sua edição. Está na coleção Salvat.
Agradeço a oportunidade de escrever neste blog, reler esta edição me trouxe a mesma emoção de quando eu li a primeira vez. E agradeço a você que lê e conversa comigo através deste blog. Se você não vem aqui ler, provavelmente eu não escreveria.
Abraços do Quadrinheiro Véio !